Teresa Rita Lopes | Breve biografia de Florbela Espanca

FLORBELA ESPANCA, maltratada e incompreendida, suicidou-se a 8.12.1930

Nasceu em Vila Viçosa a 8.12.1894 e foi baptizada como filha de pai incógnito. O pai Espanca era casado com uma senhora estéril que aceitou que ele usasse uma serviçal como barriga de aluguer “avant la lettre”- foi o que ele lhe disse, porque a jovem, atraente, devia proporcionar-lhe algo mais do que a satisfação de cumprir o seu dever de procriador para com a sociedade… Fez, da mesma forma, um rapaz, Apeles, um dos grandes amores de Florbela. Essa Mãe – que Florbela evoca enternecidamente num poema – morreu aos 29 anos, o que fez jeito ao casal – à mulher, pelo menos, que herdou os filhos da outra.
Em 1908 a família foi para Évora para que eles pudessem estudar.
Com o curso liceal concluído, Florbela casou aos 19 anos e foi, com o marido, para Redondo, instalar um colégio que teve curta existência, pelo que voltou para Évora. Em 1917 inscreveu-se em Direito, em Lisboa (que cursou até ao 3º ano). Imagino que deveria ter poucas colegas mulheres. Frequentava o café Gelo, poiso de intelectuais, na altura em que os relentos de “Orpheu” se reacendiam no “Portugal Futurista”, de Almada. Não há vestígios – que eu saiba – de se ter relacionado com essa gente – todos homens.
Edita em 1919 o seu primeiro livro, “Livro de Mágoas”.
Novo casamento em 1921. Abandona a Faculdade e vai, com o marido, para Matosinhos. Sai, em 1923, o seu segundo livro de poemas, “Livro de Soror Saudade”. Nunca li qualquer referência da parte de “os de Orpheu” a Florbela Espanca.
Em 1925 casa pela terceira vez, e até religiosamente, mas também este casamento acaba em separação.
Entretanto um amigo de juventude, a quem dá a ler o exemplar já constituído de “Charneca em Flor”, mostra-o ao professor de Literatura Italiana, na Universidade de Coimbra, Guido Batelli que, pleno de admiração, se propõe tratar da publicação do livro. Que vergonha que tenha sido necessário um estrangeiro para lhe reconhecer valor! Sem ele, o livro não teria sido editado e, quem sabe, talvez se perdesse, atendendo à agressividade que a família nutria perante a vida tão amorosamente tumultuosa da sua autora, documentada nos poemas. É bem possível que os tivesse destruído.
As doenças, várias, de que sofre há tempo, agudizam-se. Sente-se mal amada, ultrajada, ignorada como escritora (até a “Seara Nova” lhe deu o desgosto de lhe recusar um poema!) A 8.12.1930 (dia do seu aniversário) suicida-se com um potente barbitúrico, Veronal. O último marido, médico, de quem já estava separada, recusou-se a assinar a certidão de óbito que é atribuído a um edema pulmonar – recorreram a um carpinteiro para o fazer…A igreja católica irá consumar a perseguição que, há tempo, movia contra ela e recusou-lhe assistência ao funeral. Durante muitos anos, alguns elementos dessa igreja tinham-se aplicado a denegri-la com os piores insultos. Quando, finalmente, em 1949, um grupo de apoiantes de Florbela consegue que, à revelia dessa Igreja, seja colocado no jardim de Évora um busto da poetisa, um cónego seu perseguidor nos jornais, J. Augusto Alegria, indignou-se contra tal homenagem, em “Novidades” (jornal dirigido por Monsenhor Moreira das Neves) denunciando a “sinceridade de bordel” de Florbela.
(Confesso que só agora sei da indirecta relação desse “Monsenhor” a Florbela, mas quem sabe se foi ela que me levou a rejeitar fazer-lhe, na televisão, uma entrevista com texto laudatório aí fornecido sobre o seu livro de versos “Cristo sobre o Tejo”…Por essas e outras, tive que desistir do promissor futuro que um concurso, em 1959, me tinha aberto nesse palco…).
É verdade que José Régio, elogiou a arte de Florbela depois da sua morte mas, vendo bem, como a de uma mulher – uma costureira, ao escrever “talhou um soneto como quem talha um vestido.”
Que vergonha que os portugueses do meu século xx tenham assim tratado não só uma mulher que estava à frente do seu tempo mas uma poetisa que coloco nos altos cumes dessa arte – não abaixo da – justamente cultuada – Sophia. Diria mesmo que um pouco mais acima porque mais intensa, mais visceral, mais ousada na sua condição de mulher artista, nascida num país de atrasados costumes, mantido entre os varais de um catolicismo reaccionário a que o Estado Novo sempre irá recorrer.

(Foi um precioso artigo de José Frota que me deu a saber mais amplamente a biografia de Florbela – que, afinal, desconhecia em parte.

Eis o blog: https//poetaeo povo.blogs.sapo.pt.18637.html
Para ele o meu agradecimento.)
Teresa Rita Lopes

Retirado do Facebook por Vítor Coelho da Silva