INOMINÁVEL CORPO DESNUDADO | Maria Helena Ventura

O corpo é permanência
carta em branco
registo absoluto do espaço mais azul.
Alma e arquivo
perfeito aconchego dos instantes molhados
na secura dos dias.
Guarda a ressonância das vozes
o fragmento da música
lambendo a madrugada
as águas da deriva em noite quase imóvel.
O corpo sabe tudo:
o nome das presenças
que habitam o silêncio
a intimidade que mora nas ruínas
como erva oblíqua e ressequida.
Sabe de tudo:
das migrações circulares de tempestades
que voltam mais domáveis
na doçura da silhueta de outro dia
de outra noite
fechada no laço
de um beijo.

NA CAMA, O BEIJO, tela de Henri de Toulouse-Lautrec de 1892