BEIJO TÉCNICO e outras histórias | Fernando Venâncio

Nuno Meireles leu certo “Beijo Técnico”, e teve uma conversa em profundidade com o seu alter ego. Ei-la. Literalmente e por extenso.

‒ Leste o livro do Venâncio?
‒ Li, não posso dizer que tenha gostado
‒ Eu também não
‒ Aquilo é lá coisa que se escreva
‒ Se é que foi ele a escrever
‒ Pensei o mesmo
‒ Das duas uma, ou ele foi faltando às aulas ou
‒ Foi um ‘ghost writer’
‒ Isso, só pode, não concebo de outra maneira
‒ O que eu não acho bem é aquela mania
‒ A do, como dizer, do estilo?
‒ Não é isso, é a mania
‒ Sei, sei, telegráfico
‒ Não, qual telegráfico, é a mania dele
‒ De pegar a meio as coisas?
‒ Mais ou menos, mas é
‒ Eu sei, é tudo um jogo de sedução
‒ Precisamente, com o leitor!
‒ Sei, mas é ‘doping’ claro
‒ ‘Doping’?
‒ Ele sabe como funciona a língua, nem deviam permitir
‒ É mesmo, eu sempre defendi isso
‒ Senão, parte com avanço, com vantagem
‒ E até nos faz gostar
‒ Sim, e até sorrir com o desamparo daquela gente
‒ Mas é truque
‒ Sim, é técnicas linguistas
‒ Ou linguísticas, eu sei lá
‒ Depois, claro, aquilo prende
‒ Sim, sim
‒ Mas não é pelos bons motivos, longe disso
‒ Sim, é como um vício
‒ E nem deslarga
‒ E os vícios são todos maus, não é?
‒ É assim uma espécie de cola literária
‒ É isso, é isso
‒ Tu pegas e ficas naquilo
‒ Mas é truque, sabes?
‒ Estou completamente de acordo
‒ Porque aquilo do desarmante
‒ Sei
‒ E do melancólico
‒ E a coisa meio singular daqueles desavindos todos
‒ Sim
‒ Aquilo pode parecer que é assim, até podemos ler assim
‒ E sentir
‒ Sim, sentir assim
‒ Mas é só do jeito de ele pôr as palavras
‒ É truque
‒ Claro, ele sabe-a toda
‒ Eles aprendem aquilo nos cursos
‒ Depois achamos que gostamos
‒ Sim, passou-se o mesmo comigo
‒ Mas é só da maneira de ele pôr as palavras

Nuno Meireles

Nuno Meireles